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O Núcleo de Estudos em Cosmovisão Cristã Althusius reúne pessoas interessadas em cultivar a visão de mundo do Cristianismo bíblico e histórico e refletir sobre sua relação com a pós-modernidade, por meio de ciclos de leituras de obras clássicas e contribuições contemporâneas de relevo.

O objetivo primordial do Núcleo Althusius é expor as reivindicações abrangentes da fé cristã e discutir as suas implicações no campo da filosofia e das ciências humanas, especialmente em questões pertinentes ao culto da tolerância e ao relativismo epistemológico e moral que permeiam a pós-modernidade.

Quem foi Althusius?

Johannes Althusius (1557-1638) foi um jurista alemão de firme confissão calvinista, conhecido basicamente por sua obra Politica methodice digesta et exemplis sacris et profanis illustrata. Em 1586, após obter seu doutoramento, Althusius foi convidado para lecionar direito na recém fundada Academia Herborn, cujo primeiro reitor fora Gaspar Oleviano, um dos autores do Catecismo de Heidelberg. Em 1597, após alguns meses de estudo teológico em Heidelberg, o próprio Althusius tornou-se reitor da Academia.

Em 1605, foi convidado para ser síndico de Emden, uma das primeiras cidades alemãs a abraçar a fé reformada e que recebeu a alcunha de a “Genebra do Norte”. O forte espírito calvinista de Emden lhe deu uma posição de excepcional influência sobre áreas estratégicas dos Países Baixos e da Alemanha, de sorte que a cidade era frequentemente chamada a alma mater da Igreja Reformada Holandesa. Emden foi também o refúgio de muitos exilados durante a perseguição espanhola do Duque de Alba , assim como de diversos teólogos ingleses (divines) durante a reação católica da rainha Maria de Tudor (a “sanguinária”).

Althusius governou Emden até sua morte, em 1638, período no qual publicou a edição definitiva de sua Politica (1614) e também a Dicaeologica (1617), uma obra monumental que buscava construir um sistema jurídico completo a partir da lei bíblica, do direito romano e de diversos direitos costumeiros. Em 1617, Althusius foi eleito presbítero da igreja de Emden, ofício que exerceu até a o fim da vida. Em suas correspondências, há frequentes críticas às opiniões teológicas arminianas e, em uma carta, ele especificamente se opõe à Pietas, de Hugo Grotius, ao argumento de que ela solaparia a liberdade e a independência da igreja, ao transferir funções eclesiásticas ao governo civil.

O pensamento de Althusius não foi popular no seu tempo. Segundo Lucas G. Freire, isso se explica pelo fato de que a teoria política dos séculos XVI e XVII estava devotada à instrução dos príncipes absolutistas, ao passo que a Politica de Althusius foi dedicada àqueles que estavam envolvidos na resistência holandesa ao absolutismo. Em vez de tratar a obra althusiana como irrelevante ou como mero objeto de curiosidade arqueológica, Freire defende que dela podemos aprender diversas lições úteis ao nosso próprio tempo.

De especial interesse para o Núcleo está a ideia de pluralismo que Althusius erige a partir de uma distinta ontologia política. Para ele, as diversas associações humanas que compõem a vida social – famílias, igrejas, guildas, corporações de ofício, cidades-estados, provícias etc. – não são meras “partes” de um todo (o Estado); antes, cada uma delas existe de per si e possui sua própria estrutura interna de autoridade. Daí se segue que cada uma dessas associações é soberana em sua própria esfera e tem a sua autoridade limitada ao seu próprio escopo ou “lei interna”.

O que é “cosmovisão cristã”?

No final do século XIX e início do século XX, o teólogo, jornalista, político e estadista Abraharm Kuyper liderou na Holanda um movimento de reforma religiosa, intelectual e cultural que ficou conhecido como “neocalvinismo”. No cerne desse movimento estava uma interpretação renovada, criativa e abrangente da tradição cristã reformada, segundo a qual a religião cristã não se restringe à esfera eclesiástica e teológica, mas constitui uma verdadeira cosmovisão, uma força cultural (dynamis) que informa e dirige todos os âmbitos da vida humana. A partir dessa perspectiva abrangente, os neocalvinistas defenderam um ativo engajamento cristão nas diversas esferas da sociedade – inclusive a política, a educação, a arte e a ciência –, em obediência ao seu “mandato cultural”.

Desde então, os cristãos têm usado o conceito diltheyano de cosmovisão não apenas para expressar a ideia de que o cristianismo possui implicações abrangentes sobre todas as esferas da vida – é famosa a frase de Kuyper segundo a qual “não há um único centímetro quadrado em todos os domínios da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: é meu!” -, mas também para reivindicar que o homem é um ser essencialmente religioso e, por isso mesmo, toda ação ou reflexão humana – inclusive a reflexão científica e filosófica – é governada por um “motivo religioso”, que é o seu motor e a sua própria condição de possibilidade. Sendo assim, o envolvimento cultural que se confesse arraigado no motivo cristão não pode ser descartado a priori, pelo simples fato de ser religioso, porque, afinal, todo envolvimento cultural procede de um coração religioso – mesmo o do agnóstico e o do ateu.